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sábado, 26 de janeiro de 2008

PR 43 - SP 11

Diário de bordo

Londrina, 25 de janeiro de 2008, 7h

O visor do celular marca "VIVO PR 43". Cheguei em Londrina já com o dia claro. Embora tenha havido paradas, consegui dormir em boa parte da viagem. Ouvi muita música no celular e no mp3 - músicas que me fizeram lembrar sensações e sentimentos que me trouxeram aqui.

Na rodoviária, uma simpática faixa da UEL recepcionava os calouros com boas vindas e indicava como chegar até a Universidade, usando as linhas de ônibus. Fiquei surpreendido, mas não deveria: a UEL é uma instituição que se preocupa muito com os alunos, ao que parece.

Fui tomar um café, essa bebida tão gostosa e que é fruto da terra - Londrina já foi uma das maiores produtoras de café do Brasil. Na hora de pagar a bebida, uma surpresa: custou só R$ 0,80. Um sinal do baixo custo de vida, comparado a São Paulo.

E um sinal também que os protestos veementes de moradores e principalmente de estudantes pelo que consideram um preço abusivo nos ônibus: R$ 2,00. Considerando o custo de vida da cidade, o preço é realmente alto - pouco menos do que os R$ 2,30 que pagamos em São Paulo.

Em um aspecto, Londrina e São Paulo são muito parecidos: pegar ônibus às 7h30 da manhã é sinônimo de lotação. Bom, talvez não tanta quanto em alguns ônibus de São Paulo, mas ainda assim, bem cheio. Não foi difícil reconhecer a UEL quando chegamos. Confirmei com o cobrador e desci, junto com muitos outros estudantes na mesma situação.

Fiz a matrícula tranqüilamente. Demorou algum tempo na fila, mas a organização foi tamanha quue esse não foi um problema, definitivamente. Ao entrar na sala onde seria feita a matrícula, cada aluno recebia uma senha, que seria chamada em um painel eletrônico. Para esperar, muitas cadeiras à disposição. Tudo organizado.

Na saída, os veteranos - muitas mulheres, por sinal - perguntavam o curso. Uma delas olhou para mim e falou: "você é jornalismo, não é?". Eu nem precisava responder que sim: calça jeans, camiseta sem estampas, cabelo curto, barba por fazer e óculos. Estava escrito na minha cara - ainda não literalmente - que eu faria jornalismo.

Eram duas meninas e um cara. Perguntaram de onde eu era, enquanto pintavam minha cara e meu braço com batom e tinta guache. Respondi que era de São Paulo, e uma delas disse que eu gostaria de Londrina. "Já gosto", respondi.

Voltei para a rodoviário ainda pintado, para tentar trocar a minha passagem - marcada para as 21h30 - por uma que tivesse um horário mais cedo - de preferência, o próximo ônibus, às 11h10. Era 10h25. "Só tem um lugar". "É o meu". Troquei a passagem e fui limpar o rosto.

Encontrei um outro estudante limpando o rosto. Ele também faria jornalismo e também chamava Felipe. Conversamos um pouco e ele me contou que era de São Paulo e que ainda esperava o resultado da UNESP para saber se viria definitivamente para Londrina.

Conversamos um pouco sobre universidades, expectativas, as cidades. Disse a ele que ainda esperava o resultado da Fuvest para também definir a minha vida. Ele iria no ônibus das
13h, disse que ia almoçar um hanbuerguer muito bom que tinha ali perto. Nos despedimos, desejando boa sorte um ao outro.

O lugar que tinha sobrado no ônibus era o pior, claro: poltrona 40, a última, ao lado do banheiro. Mas tudo bem, ao menos chegaria logo em casa e não precisaria ficar zanzando em Londrina sem ter dinheiro para fazer alguma coisa. E ao menos uma mulher ficou ao meu lado - uma menina, eu diria.

Dormi boa parte de viagem, terminei de ler Cem escovadas antes de ir para a camaI, de Melissa Panarello e comecei a ler outro livro. Cheguei em São Paulo pouco antes das 18h30, quando a noite começava a se desenhar no céu da capital paulista.

Era 18h30 e eu tinha passado praticamente 15 horas do dia em um ônibus, contando desde as 23:30 do dia anterior, quando tinha partido dali mesmo. Cheguei em Londrina às 7 da manhã, parti às 11h10. Quatro horas na bela cidade, e mais de meio dia dentro do ônibus.

Matrícula garantida, paixão por Londrina renovada, pulmões cheios de esperança, depois de respirar os ares do novo na cidade chamada de "capital do norte do Paraná". Este será um ano muito bom, eu posso sentir. Mesmo que eu não saiba onde estarei daqui a um mês, no dia 25 de fevereiro, data de início das aulas.

O visor do celular, agora, marca "VIVO SP 11". Daqui a um mês saberei se o visor ainda estará marcando a mesma mensagem ou se voltará a marcar aquela do início deste texto.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Diário de bordo PR - 43

São Paulo, 24 de janeiro de 2007, 23h

Entro na última hora do dia 24 aqui na Rodoviária. É feriado em São Paulo no dia 25 e, por isso, a rodoviária tem grande movimento. A plataforma 17, onde vou embarcar, está cheia. Muita gente que vai sobretudo para Londrina, o principal destino.

Há um número considerável de japoneses. Em Londrina existe uma importante colônia nipônica, talvez só menos importante que São Paulo - a maior colônia janponesa fora do Japão.

O meu ônibus é o último a sair. Vou cortar a noite, atravessá-la dentro do ônibus e acordar com Londrina na janela. Já vi dois ônibus partirem da minha plataforma de embarque. Cheguei cedo aqui porque não aguentava mais ficar em casa. Uma ansiedade mde atiça os pêlos do corpo de um jeito estranho. Talvez seja porque o caminho para uma mudança radical na minha vida, mas tenho a impressão de fazê-la no escuro.

Olho para o horizonte sem saber como será a minha vida daqui a um mês. Não sei nem como será amanhã, perambulando por uma cidade que nem conheço bem.

Talvez essa sensação seja fruto de mais uma mudança - algo que passou a ser freqüente nos últimos dois anos. Mudei de emprego três vezes. Na última, abandonei o trabalho fixo para me tornar freelancer, para ter mais tempo para estudar e passar no vestibular - o objetivo principal do meu ano.

Esta, porém, seria a maior mudança de todas. Outra cidade, outra universidade, longe de família e amigos. O ônibus que estava na plataforma saiu. O meu acabou de chegar. Tenho que ir.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

London Bridge

Passei a minha infância morando em rua com nome de Coronel, mas próximo às ruas Oxford, Pall Mall e Londres. Na faculdade, um amigo meu dizia que eu era londrino, porque andava de camiseta enquanto todo mundo morria de frio nas suas blusas. Quando resolvi fazer jornalismo para aquietar a minha vontade incontrolável de ser jornalista e não passei no primeiro ano de vestibular, resolvi prestar o vestibular da UEL, em Londrina. Agora, vou para lá fazer a matrícula, enquanto espero pelo resultado de São Paulo.

Talvez eu não vá mais morar perto da rua Londres, mas estarei em londrina. Eu não sou londrino, mas posso vir a ser londrinense. Nunca fui a Londres, mas Londrina, já é a terceira vez. E, ainda, talvez Londrina seja a cidade que vai presenciar a minha mudança, oficialmente falando, de profissão. Bom, talvez não profissionalmente, ao menos no começo. Mas ao menos em termos acadêmicos.

Serão dois dias dormindo no ônibus: um na ida e outro na volta. Tudo para gastar o quanto menos for possível. Passarei algumas horas em Londrina, onde talvez eu passe os próximos anos da minha vida. A aventura começa aqui. E aí, talvez, o nome do blog não seja mais propício. Porque se tem uma coisa que Londrina não tem, isso é caos. Cidade grande sim, caos não. Talvez só permaneçam as minhhas intermináveis crises.

Me sinto em uma tarde nebulosa de Londres, com a fog a tapar os olhos. Não consigo enxergar um palmo à frente do meu futuro. Daqui a um mês, a vida é um mistério para mim. Que venha o melhor.

domingo, 18 de novembro de 2007

Ah, Londrina...

Exatamente há uma semana atrás, eu estava em Londrina. Uma cidade belíssima do norte paranaense. Com quase 500 mil habitantes e IDH 0,824, Londrina é uma cidade muito atraente. Isso se vê mesmo ficando tão pouco tempo como fiquei - do fim da tarde de sábado à noite de domingo.

Para um paulistano nato como eu, Londrina tem muitos atrativos: o ar limpo, a infra-estrutura de cidade grande sem trânsito ou caos, organização, limpeza, beleza, mulheres belas... Além das boas referências que já tenho, em função de duas amigas minhas morarem lá e tecerem elogios sempre que pergunta a elas.

Não falei propositalmente sobre a Universidade Estadual de Londrina, a conhecida UEL. A universidade é excelente, famosa, com bom reconhecimento na minha área. E se no começo do ano, a idéia de mudar de cidade me parecia muito ruim, hoje eu já mudei completamente de opinião. Mudar de cidade, especialmente para um lugar como Londrina, me parece excelente.

O problema foi que a prova foi muito mais difícil do que todos esperávamos. Mas a história começa um pouco antes.

Sábado de manhã, rodoviária da Barra Funda. Começa a jornada rumo a Londrina. Fomos nos agrupando aos poucos. Seríamos oito, no total. Quase todos com o mesmo objetivo: medicina. Não era o meu caso. Aliás, eu acho que fui o único do Anglo - o cursinho, que organizou a viagem - que fui para lá prestar Jornalismo. Mais: o único a prestar um curso de humanas.

Ah, mas falando nisso, esqueci de citar que os oito que citei acima eram os "excluídos". Isso porque a viagem organizada pelo cursinho era limitada, mas venderam mais vagas do que de fato haviam. Deu overbook no ônibus!

Nos deram passagens de ônibus tradicional - os demais iram pelo ônibus fretado -, com um funcionário do Anglo junto, como monitor. Em Londrina, encontraríamos o resto do grupo.

Viagem boa, amizades novas. Letícia, a polaca, estudiosa, bela, educadíssima, inteligente, uma das pessoas mais simpáticas que conheci. Segundo ano de cursinho. Medicina. Thiago, o monitor. Interiorano, engraçado, companheiro. Guilherme, daqueles que aproveitam a vida. Queria odonto, mas queria sem muito saber se quer. Kaká, simpática, divertida, nos tornamos amigos num piscar de olhos - no caso, literalmente, entre uma soneca e outra da viagem. Ela também queria Medicina. Mari, menina tímida, muito bonita, simpática, inteligente, usa óculos - o que é sempre um charme. Medicina. Pedro, quieto, tímido, quase não falou conosco. Mas sei que ele queria Veterinária. A Carol também não era de falar muito. Nem sei se ela queria Medicina. Provavelmente sim.

Em Londrina, ficamos em um hotel cinco estrelas. Bom hotel. Quartos triplos. Dois candidatos à medicina. Eles, como quase todos da viagem, estudavam de manhã. É quase obrigatório: só se pode querer medicina se estudar de manhã, tiver tempo para se dedicar a isso.

Como chegamos já no fim da tarde, não tínhamos muito o que fazer além de descansar. O pessoal saiu para jantar, mas eu fui encontrar uma das pessoas mais fascinantes com quem já havia conversado: Jana.

Aquela mulher é muito diferente de tudo que vi por aí. Ela é linda, sem dúvida, seja pela pele, pelo cabelo, pelo rosto, pela boca, pelo corpo ou pelos olhos azuis-infinito, enfeitiçadores. Mas muito mais do que bela, ela é inteligentíssima, sagaz, nada fresca, maldosa, sarcástica, ácida, irônica. Mulher acima da média - até porque a média é uma merda, se permitem o trocadilho.

Fomos dar uma volta pela cidade e ela me mostrou um pouco daquela bela cidade. Eu mal tinha conseguido "chegar". Ainda estava cansado pela viagem e vê-la foi ótimo. Fomos comer no shopping - algo que parece igual em qualquer lugar. Rimos, nos divertimos com o pouco tempo que passamos juntos. E o tempo foi mais do que suficiente para me encantar com aquela bela cidade, com o pouco que ela me mostrou - que pareceu muito aos meus olhos.

Chega a manhã. E chegaram várias vezes para mim. Acordei duas ou três vezes já de manhã. Era cedo, dormia mais. Até acordar, ir tomar café e aguardar a hora de sair pra a prova. Sim, porque almoçar que é bom nada. Sairíamos meio-dia. Rodaríamos pela cidade toda, pelos pontos de prova, deixando cada um em um local para a prova.

Ponto a ponto, as pessoas foram ficando em seus locais de prova. O meu era o penúltimo. E lá fomos nós. Quatro horas de prova, 60 questões, muito texto, sociologia, filosofia. Imaginei que sociologia e filosofia não seriam tão pesados. Mas foram. Uma prova massacrante. Muito texto, questões sem ordem de matérias. Muito mais difícil do que eu esperava.

Curiosidades engraçadas, para não dizer ridículas, da prova da UEL: antes de entregar a prova, fui ao banheiro. Isso porque depois de entregue a prova, não era mais permitido. Na porta do banheiro, um detector de metais. Estranho, estranho. Mas tudo bem. Já dentro do banheiro, o monitor me acompanhou (??) e ficou me olhando enquanto eu, aham, urinava. Quer dizer, travei. Porra, que negócio é esse de ficar olhando enquanto mijo? Demorei um pouco para conseguir finalmente fazer o que tinha que fazer. Que coisa mais pentelha.

Fim de prova, fomos todos esperar o ônibus nos buscar. E esperamos. Duas horas. Deu tempo até de pegar o caderno da prova - que só pode ser retirado uma hora e meia depois do término da prova, algo que também não tem muito sentido, mas enfim.

Pelo atraso, tivemos que ir direto para a rodoviária. Chegamos faltando cinco minuitos para a partida. E achei que voltaríamos todos cansados, dormindo a viagem toda. Ledo engano. No primeiro trecho da viagem, antes da primeira parada, viemos conversando Thiago, Mari, Leticia e eu. Altas horas e a parada só serviu para comermos um pão de queijo.

O segundo trecho já teve um pouco de cochilo. Um pouco. Dormíamos um pouco, conversávamos um pouco. Aliás, só nós, porque o ônibus toda dormia. Só no último trecho da viagem que dormimos mais. Dormíamos mesmo, gostoso, quando o ônibus chegou a São Paulo. Eram 4:11 da manhã. A maioria do grupo - e dos alunos do Anglo que foram a Londrina - iria direto para as aulas, logo pela manhã. Eu, como estudava à noite, fui para casa. Isso, claro, depois que o metrô abriu, às 4:40 da manhã. Peguei o primeiro ônibus que saiu da estação, com destino à minha casa.

Dormi três horas depois que cheguei em casa. Fiquei como se estivesse fora do fuso horário. Voltei sabendo que precisaria trabalhar ainda no free lance que eu tinha. E estudar, muito, para dar conta do que viria pela frente: semana de revisão.

O saldo da viagem para Londrina foi muito positivo. A prova foi difícil, mas foi difícil para todos. Resta uma esperança. E além da diversão da viagem, as amizades ficam. Sem falar em ter encontrado Jana, uma pessoa fantástica. Tomara que eu passe para a segunda fase, para poder voltar para lá. Ah, Londrina...