quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A mulher dos sonhos

Reconhecia bem onde estava. Era estranho estar ali, depois de tanto anos. Não me sentia à vontade, parecia que o lugar não fazia mais parte de mim. Talvez não fizesse mesmo. Não lembrava a razão de estar ali, naquele momento.

Olhava para o lado para tentar entender. Sentado no chão e encostado em uma pilastra, observava o que acontecia, sem saber bem o que fazia ali. Via rostos conhecidos, mas não falava com nenhum deles. Aliás, parecia que eu sequer existia naquele lugar. Me sentia um observador externo, como se ninguém pudesse me ver mas eu pudesse ver a todos.

Foi quando eu a vi. Ela não tinha nada a ver com aquele lugar. Nenhuma relação, nada. Tinha a ver comigo, só comigo. Um momento passado, mas com ela, ali, totalmente presente e atual. Uma combinação inexplicável - mas que eu sequer pensei na hora.

Ela estava toda de preto, saia e blusinha. Os olhos com o brilho que eu já estava acostumado a me encantar todas as vezes como se fosse sempre novo. A pele, o sorriso, o olhar que tirou toda armadura que me protegia desses sentimentos.

Ela sorriu para mim e veio andando em minha direção. Abaixou-se na minha frente e me beijou, de uma forma que eu nunca vou me esquecer. Uma forma que me pareceu tão familiar... "Queria bater o recorde daquele dia", ela disse.

Ali eu senti que tudo aquilo fazia sentido. Não precisava ser explicado, era para ser vivido. Ela e seu vestido preto, ela e seu beijo misterioso, ela e meu desejo mais intenso, que ela parecia conhecer perfeitamente. 

Quando vejo, estou de olhos fechados. Torcendo para que aquele beijo seja de verdade um dia.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Vida de londrino

"Londrino"?, você vai me perguntar. Sim, londrino! Não, não nasci em Londres. Não, também não é uma alusão à querida Londrina, que me conquistou, mesmo eu sendo paulistano, nos poucos dias que passei lá, quando quase fui estudar na UEL - e só não fui porque a USP me chamou para ficar por aqui em São Paulo.

Então, afinal, por que londrino?

Bom, isso começou quando o Alicio começou a me chamar assim nos dias de frio que eu aparecia de camiseta. E como isso se repetia sempre, ele me chamou assim várias vezes. Com o detalhe que as coisas ainda são bem parecidas hoje.

Depois, veio Londrina. Ok, não passei mais do que uns dias por lá. Não é motivo para ser chamado assim. Mas é quase uma homenagem àquela cidade tão bela e que me acolheu muito bem, mesmo eu não tendo ficado por lá.

Mas tem um motivo a mais. Esses dias eu vi um pedaço do Lavanderia MTV da qual participou a sempre interessante Georgia, uma amiga de longa data. O assunto: um namoro a distância com um londrino.

Bom, ainda não deu para entender, mas já explico: ali no começo do programa ela explica que o estilo dele é low profile, tímido. Inglês, oras. Ela conta que ele não dava sinais de que estava afim. Ele, contudo, contou a ela que achava que estava dando a maior bandeira - na visão dele, claro.

Comigo acontece mais ou menos a mesma coisa. Algum tempo atrás, acreditei ter demostrado que estava muito interessado em uma menina. A impressão dos outros, porém, foi justamente o contrário: ela que parecia estar dando em cima de mim. Não desmenti, como também não confirmei.

Recentemente, a mesma menina, a mesma situação. A minha impressão é que eu estava em cima dela. Mas a impressão que ficou para uns amigos foi que eu "lerdeei", ou seja, que ela deu mole e eu não aproveitei.

Dessa vez, eu desmenti: disse que eu queria, que fiz tudo para demonstrar e, mais do que isso, cheguei para tentar fazer acontecer. Talvez tenha errado a forma. Talvez ela realmente não queria e ponto.

Será que eu sou londrino e não sei?

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Você tem uma união estável?

Estava no meu gmail quando vejo um dos anúncios relevantes no alto da página: "www.priscilagoldenberg.adv.br - saiba a diferença entre união estável e namoro", ou algo do tipo. Achei curioso, porque o e-mail nada tinha a ver com a assunto, mas cliquei lá para conferir.

O site - excessivamente pequeno, por sinal - explica o que é uma união estável, como se caracteriza, o que isso implica e tudo mais. No final, ela (imagino que tenha sido ela que escreveu ou, ao menos, que aprovou) explica que um namoro onde as pessoas não morem juntas dificilmente se enquadra como união estável. Até aí, o texto ia muito bem. Mas aí vem essa pérola, que fecha o último parágrafo:

Assim, como a relação de namoro pode ser confundida com uma união estável, é bastante importante a elaboração de um contrato de convivência em que os companheiros estabeleçam o marco inicial da união estável.
Como é que é? Aí virou jabazão, e forçado. Como assim, assinar um "contrato de convivência"? As pessoas fogem de casamentos, porque alguém, em sã consciência, assinaria um contrato desse? Até porque se for para assinar um contrato, que seja logo o casamento (que segundo a moça mesmo diz no texto, vale o mesmo que a tal união estável ou o contrato bendito).

Eu hein...

domingo, 14 de setembro de 2008

O friozinho na barriga

1997. Campeonato de sócios do Corinthians. Meu pai via ali a chance de eu me tornar jogador de futebol. "O novo Zé Elias", dizia ele. Eu, apaixonado por futebol, via ali um começo. Tinha 13 anos, podia ser a chance. Sentia um frio na barriga toda vez que acordava nos sábados de manhã para jogar.

O futebol era das poucas coisas que me davam frio na barriga. A outra, claro, era quando me apaixonava por alguma menina. A paixão talvez seja a única que ainda conseguia fazer isso hoje em dia - embora esteja cada vez mais rara.

Já tive entrevistas de emprego que fiquei ansioso. Ansiedade é algo normal, corriqueiro até, quando vou fazer algo novo, conhecer algo diferente, encarar um desafio. Mas aquele frio na barriga, que me gelava, me deixava com as mãos frias... Esse é raro.

Depois que parei de jogar futebol, disputar campeonatos e que as paixões rarearam, essa sensação estava esquecida.

Estava.

Surge um desafio em uma sexta à noite. Um texto, 3.500 caracteres. Um assunto que eu entendo muito bem. Por que o frio na barriga? Porque era um teste. Uma perspectiva. Uma esperança que se acendeu, mesmo que remota. Algo diferente, algo emocionante.

Sábado, então, foi hora de colocar isso em prática. Mãos no teclado e muita leitura, para ter apenas certezas nas palavras. Palavras, frases, e vòila! Ops, passou um pouco o número de caracteres. Edita, edita, edita... Ops, agora faltou. Edita, edita e... Perfeito!

Cada vez que eu faço isso, sinto que eu realmente nasci para trabalhar com jornalismo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A mão "invisível do mercado" tomou um tapão do governo americano

Um dos tópicos que sempre causa controvérsia em pessoas que gostam de política (seja em aulas de história, seja em aulas sobre economia, seja em uma mesa de bar) é a intervenção do Estado na economia. Quem prega esse tipo de prática é o liberalismo econômico, forte em países como os EUA.

O liberalismo é a doutrina política que propõe um Estado limitado, com menos participação na economia. John Locke (1632-1704) foi um dos principais ideólogos do liberalismo, que justamente buscava na liberdade individual uma forma de mudar o absolutismo monárquico e o direito divino, ainda muito fortes em sua época.

Um dos pilares dessa doutrina é o livre mercado. Esse ponto é o chamado "liberalismo econômico", que já foi adaptado e é chamado de neoliberalismo. A idéia é a não intervenção do mercado na economia, com comércio sem restrições, diferente do mercantilismo e do protecionismo.

Os Estados Unidos é considerado o país do liberalismo, que defende um mercado aberto, uma concorrência livre, um mercado que viva sob uma auto-regulação - é a "mão invisível" do mercado.

Os americanos levantam essa bandeira por dois motivos básicos. Um deles é histórico. Os Estados Unidos têm em sua história uma luta por direitos individuais, especialmente pela forma como foi formado - colonos ingleses expulsos da Inglaterra. A liberdade individual sempre foi fundamental para que os Estaods Unidos pudesse nascer como país.

O segundo motivo é econômico. Aproveitando o vácuo deixado pelas potências européias em guerra, no início do século XX, os americanos fizeram sua economia - que já vinha em pleno crescimento - se expandir para todo o mundo. Sua indústria é forte e substituiu à altura os europeus - às vezes até de forma mais eficiente, uma característica dos EUA.

Avançando mais de 50 anos no tempo, os EUA possuem um PIB maior do que qualquer outro no mundo. A livre concorrência, nesse caso, beneficiaria a quem mais (e melhor) produz - não por acaso, são eles. Assim, o liberalismo econômico é uma doutrina bastante clara para os americanos.

Porém, o protecionismo - algo que os EUA condenam nos países subdesenvolvidos, especialmente no ramo de eletrônicos - faz parte do cotidiano americano. Os commodities importados pelos americanos sofrem grande tarifação, para proteger os produtores dentro do país - haja vista a laranja brasileira, de melhor qualidade e preço do que as americanas, mas que sofrem tarifação de quase 30% para não quebrar os produtores americanos.

Olhando por esse prisma, os Estados Unidos parecem defender o liberalismo apenas naquilo que lhe interessa. A rodada de Doha mostrou exatamente isso: os desenvolvidos querem menos tarifas alfandegárias para os produtos eletrônicos e manufaturados em geral, mas não querem abrir mão dos subsídios e da sobretaxa sobre os produtos agrícolas.

Essa semana, porém, o liberalismo americano (nesse sentido econômico, já que o sentido político de liberalismo nso EUA é completamente diferente) sofreu um duro golpe. O governo americano fez uma grande intervenção nos dois maiores bancos de financiamento imobiliários do país, Fannie Mae e Freddy Mac. O governo demitiu diretores e investirá U$ 200 bilhões para salvar as duas empresas.

A intervenção, dizem analistas, era fundamental. O erro foi a falta de fiscaliazação do governo. Vejam só, o problema foi que a mão invisível ficou fora de controle! Logo no país com economia mais liberal do mundo.

Se fosse em uma país subdesenvolvido, provavelmente essa medida seria encarada como "atrasada", uma estatização de duas empresas privadas. Ao que parece, a economia não pode caminhar assim tão solta como os EUA parecem querer acreditar (ou nos fazer acreditar)....