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terça-feira, 7 de julho de 2009

Frieza devoradora de palavras



Palavras e pensamentos se devoram. Trazem angústia, um certo medo, muita ansiedade e tentam esconder uma paixão que não pode mais ser escondida. Toma a mente, tira a atenção, martela desejos, emerge frustrações.

A moça destila sua frieza em meio a pequenas pílulas de sorrisos. Distância artificialmente criada com postura, expressões e, por vezes, um silêncio perturbador.

Palavras jogadas para que ela abra uma porta para o diálogo. Em vão. Elas batem e voltam, como se encontrassem apenas um muro que impede qualquer aproximação daquele território. Parece que o diálogo só é possível se um ataque forte, preciso e seguro atingir o muro. Só assim parece ser possível abalar a sua resistência.

Oportunidades. Elas se esvaem como água correndo pelo ralo. Entre angústia e paixão. Esperança que se dissolve, pouco a pouco, entre olhares distantes e mãos geladas que fogem. ela já derrubou o meu muro, mas o dela parece longe de cair.

Distância, silêncio, ausência. Na ausência, busco um remédio incapaz de resolver o mundo prestes a explodir no peito. Silêncio que dessa vez tem a distância como parceira e como minha maior inimiga.

As crises, diziam os gregos, são uma oportunidade para um crescimento, aprimoramento, uma melhora. Talvez seja o momento de uma tentativa forte, verdadeira, irremediável. A crise pode ser a última chance de transformar a agonia da ausência no conforto da presença.

Que as vozes se encontrem e sejam como pedras atiradas contra o vidro do silêncio, impávido colosso.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Flecha na noite

A música nos fazia cantar. Cervejas, amigos, alegria estampada em sorrisos, em versos, em prosa. O dia se deitava e a noite escurecia o céu e trazia as estrelas para nos dar meia luz.

Em um piscar de olhos, ela apareceu. Tal qual as estrelas, quando ela chegou já era noite. Chegou, sorriu, mas seus olhos não me procuraram. Seus passos seguiram retos até outro lugar, outros braços.

Aproximou os seus lábios de outros e disparou com uma flecha contra o meu peito. Apesar de distância, atirou de muito perto. Rasgou minha pele e explodiu bem no coração. O que aconteceu? O que faz esse incômodo aí?

O céu estrelado ganhou nuvens escuras, tapando a meia luz. Escuridão no peito, flecha fincada, versos e prosa calados, ainda que ainda cantados. Voz embargada, silenciada. Palavras mudas.

Olhos perdidos. Pensamentos esparsos. É preciso centrar-se. Claridade, paz, serenidade. Paz? Não há paz. Claridade de idéias para tentar continuar, serenidade para criar uma barreira às lágrimas, que parecem inevitáveis.

Auto-controle. Sorrisos artificiais. Gosto de sangue, flecha atracada no peito. Os olhos evitam ver de novo, receber nova flechada. Nos olhos, a barreira segura as lágrimas. No coração, o sangue continua sendo bombado. Lentamente, dolorosamente.

Mas vive. Continua batendo loucamente quando a vê. E cheio de esperança.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A mulher dos sonhos

Reconhecia bem onde estava. Era estranho estar ali, depois de tanto anos. Não me sentia à vontade, parecia que o lugar não fazia mais parte de mim. Talvez não fizesse mesmo. Não lembrava a razão de estar ali, naquele momento.

Olhava para o lado para tentar entender. Sentado no chão e encostado em uma pilastra, observava o que acontecia, sem saber bem o que fazia ali. Via rostos conhecidos, mas não falava com nenhum deles. Aliás, parecia que eu sequer existia naquele lugar. Me sentia um observador externo, como se ninguém pudesse me ver mas eu pudesse ver a todos.

Foi quando eu a vi. Ela não tinha nada a ver com aquele lugar. Nenhuma relação, nada. Tinha a ver comigo, só comigo. Um momento passado, mas com ela, ali, totalmente presente e atual. Uma combinação inexplicável - mas que eu sequer pensei na hora.

Ela estava toda de preto, saia e blusinha. Os olhos com o brilho que eu já estava acostumado a me encantar todas as vezes como se fosse sempre novo. A pele, o sorriso, o olhar que tirou toda armadura que me protegia desses sentimentos.

Ela sorriu para mim e veio andando em minha direção. Abaixou-se na minha frente e me beijou, de uma forma que eu nunca vou me esquecer. Uma forma que me pareceu tão familiar... "Queria bater o recorde daquele dia", ela disse.

Ali eu senti que tudo aquilo fazia sentido. Não precisava ser explicado, era para ser vivido. Ela e seu vestido preto, ela e seu beijo misterioso, ela e meu desejo mais intenso, que ela parecia conhecer perfeitamente. 

Quando vejo, estou de olhos fechados. Torcendo para que aquele beijo seja de verdade um dia.